Prefácio

Por Cid Benjamin

O 50º aniversário do golpe militar propiciou o surgimento de uma enorme quantidade de eventos a ele relacionados. Foram, talvez, milhares de debates, seminários, conferências, palestras, livros, artigos de opinião e reportagens em jornais, espalhados pelo país, não só trazendo relato dos fatos, mas abrindo espaço para o debate e a defesa das mais diferentes interpretações. Não é exagero dizer que, em um ano, discutiu-se mais o golpe e a ditadura do que no meio século que o precedeu.

A esse processo somou-se a divulgação dos resultados do trabalho da Comissão Nacional da Verdade e das demais comissões do gênero, criadas em estados, municípios, sindicatos, universidades e outros locais. Informações relevantes sobre os anos de chumbo e seus tenebrosos porões começaram a vir à tona em uma intensidade muito maior, em um processo essencial para que a sociedade brasileira tenha conhecimento pleno de sua história recente e crie anticorpos para que a barbárie dos tempos do regime militar não se repita.

O livro de Ana Helena Ribeiro Tavares é parte desse movimento de redescoberta da nossa história, trazendo importante contribuição para ele.

Suas 26 entrevistas, muitas delas riquíssimas, com personagens que viveram de perto o pré-golpe ou a resistência à ditadura, trazem rico material para conhecimento e análise do que foi esse período na história do Brasil.

Conheci Ana Helena, como seu professor, no curso de comunicação social na Faculdade Hélio Alonso, no Rio de Janeiro. Já naquela época, em sala de aula, ela chamava a atenção, dando mostras de que não era uma aluna qualquer: seu interesse pelo jornalismo, seu nível de informação e sua consciência política eram muito superiores à média dos colegas.

Depois, Ana confirmou os melhores prognósticos a respeito de seu futuro profissional. Demonstrou garra invejável para fazer um jornalismo de pé no chão, indo atrás da notícia e dos personagens sem medir dificuldades e sacrifícios.

Esta qualidade, aliás, pode não forjar, por si só, um grande repórter. Mas é requisito indispensável para ele. E Ana Helena a tem. Este livro é demonstração disso.

Sem grandes recursos, mas com a cara e a coragem, foi atrás dos componentes de sua rica lista de entrevistados e, com a sua persistência, conseguiu ser recebida por eles.

Mas Ana não é só uma repórter que tem a tenacidade como um de seus atributos. É mais do que isso. Tem consciência da importância de sua profissão e trata de exercê-la de sua forma mais nobre: voltada para dar informação de qualidade, dentro de uma perspectiva engajada na defesa de transformações sociais na sociedade.

Assim, em momento algum ela é equidistante. Nunca fica no meio do caminho entre os que implantaram a ditadura e os que lutaram contra ela. Não é neutra na luta diária entre os que defendem com unhas e dentes seus privilégios e os desvalidos.

Ana tem um lado: o lado da justiça social e da defesa da democracia.

Mas, que ninguém se engane. Isso não tira a isenção de seu trabalho. Porque, no jornalismo, ser honesto e isento profissionalmente não é buscar equidistância entre o carrasco e a vítima. É não manipular a realidade e tratar de mostrá-la em todas as suas facetas.

Nesse período, em que tanto se debate o golpe militar e a ditadura, o livro de Ana traz, também, outro ensinamento: a busca pelo aprofundamento da democracia deve ser uma constante na vida das sociedades.

É como se ela fosse um esforço sem fim. Que, tal como a linha do horizonte, cada vez que damos um passo em sua direção, parece se afastar.

Não importa. Não nos deixemos levar pela ilusão. Cada passo é, sim, um avanço.

E, aqui, o que importa é que mais e mais passos sejam dados. E que nunca desistamos de caminhar na direção das nossas utopias.

Afinal, já dizia o mestre Mário Quintana:

“Das utopias
Se as coisas são inatingíveis… ora!
Não é motivo para não querê-las…
Que tristes os caminhos, se não fora
A presença distante das estrelas!”